quinta-feira, 17 de setembro de 2009


Música
A onda das versões
Compositores brasileiros retomam a tradição de adaptar letras de sucessos estrangeiros. Há uma nova e boa safra para se ouvir

Ivan Cláudio, Revista Isto É

No Brasil tem-se a tradição de se fazer versões de músicas estrangeiras. Na era do rádio, nos anos 1940, o compositor Haroldo Barbosa abastecia Francisco Alves com letras espirituosas. Chegou a assinar mais de 500 versões. Aí veio a jovem guarda, na década de 1960, e a moda voltou: até o refrão "iê, iê, iê" saiu do beatlemaníaco "yeah, yeah, yeah". Mesmo compositores que fizeram fama por versos literários, como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, não resistiram à tentação.

Um dos maiores sucessos de Gil é, aliás, uma versão: "Não Chore Mais" ("No Woman, no Cry", de Bob Marley), que vendeu 750 mil cópias. É uma das melhores adaptações já feitas. Outras acabam de chegar às lojas. No CD "Pelo Sabor do Gesto", Zélia Duncan assina duas ótimas letras em português para canções do francês Alex Beaupain. Com 13 clássicos da canção americana, compostos por músicos judeus, o CD "Nego" traz impecáveis versos refeitos pelo compositor Carlos Rennó. O time de intérpretes faz jus às músicas: Gal Costa, João Bosco e Erasmo Carlos, entre outros.

Rennó defende as traduções que respeitam não apenas o sentido, mas até a métrica e as aliterações do original. "Dá um trabalho do cão. Às vezes, passo a madrugada inteira para escrever um versinho." A letra de "Encantada" ("Bewitched, Bothered and Bewildered", de Rodgers/ Hart), gravada no disco por Maria Rita, reproduz mesmo as rimas atípicas, que acontecem num termo anterior ao do final do verso. "Se for para fazer letra diferente do original, chamo um parceiro e faço outra canção", diz ele. Existem os que optam por essa receita e, ainda assim, conseguem bons resultados. Caso de Nelson Motta, que se afastou bastante da canção napolitana "E Po Che Fá" (de Pino Daniele) em "Bem Que se Quis", sucesso de Marisa Monte: "Há momentos em que a gente tem sorte e as palavras em português cabem perfeitamente, parecendo que sempre estiveram ali."

As traições ficam evidentes quando os versionistas "viajam" no som das palavras e se distanciam totalmente do sentido da canção matriz. Seu Jorge, por exemplo, fez isso no disco originado de clássicos de David Bowie. O refrão de "Rebel, Rebel", ("rebelde, rebelde, como eles poderiam saber") virou uma coisa maluca e sem sentido: "zero a zero, você venceu". Muitas vezes as editoras dos músicos estrangeiros fazem vista grossa para essas liberdades. Mas não é a regra. Há oito anos, quando preparava o CD com repertório dos Beatles, Rita Lee teve seis letras recusadas, entre elas "O Amor é Tão Clichê" ("I Want to Hold Your Hands"). Só agora, no CD "Multishow ao Vivo", conseguiu gravar "O Bode e a Cabra", recriação absurda da mesma canção dos Beatles, dos tempos da jovem guarda.

O caminho oposto (ser muito literal) facilita na hora da negociação, mas pode cair na armadilha da fidelidade exagerada, especialmente em versões feitas do inglês, língua mais sintética que o português. Isso acontece em algumas faixas do CD "Tá Tudo Mudado", que Zé Ramalho dedicou à obra de Bob Dylan. Mas, mesmo quando incorporou elementos alheios ao universo do americano, como referências ao filme "Tropa de Elite" e ao músico Jackson do Pandeiro, ele não teve recusas. Só não conseguiu um bom contrato: 100% dos direitos autorais vão para Dylan. "Eu fiquei apenas com os royalties fonográficos (as vendas do CD)", diz Ramalho. "Era pegar ou largar." Zélia Duncan também não ganha nada pelas ótimas versões. "Acho um absurdo que não haja um acordo. O versionista é um parceiro do autor da música."





9 comentários:

Anônimo disse...

aí tem mais um caso desse tipo de adaptação que a stefhany-absoluta fez :S
porém, a musica ficou bizarra e completamente diferente da original

Vanessa Carlton - A Thousand Miles
X
Stefhany - Eu sou Stefhany (No meu Crossfox)

vale a pena conferir xD
André 2M

Cíntia disse...

Outro que faz essas adaptações é o grupo "The Fevers", dos anos 70, que mudavam completamente a letra das músicas, só mantinham o ritmo e, às vezes, o nome da música.

Uns exemplos:
- "Eu sou mais eu" (YMCA, Village People)
- "D.I.S.C.O" (D.I.S.C.O, Ottawan)
- "Hey Jude" (Hey Jude, Beatles)
- "Mar de rosas" (Rose garden, Joe South)
- "Oh Carol" (Oh Carol, Paul Anka)
- "Diana" (Diana, Paul Anka)
- "Genghis Khan" (Genghis Khan, Genghis Khan)
- "Eu quero amar você" (I want to hold your hand, Beatles)
- "Menina Doce" (Sugar, Beatles)
- "Não fui o vencedor" (The winner take it all, ABBA)

Bem, tem muitas outras, mas não me lembro agora.
Grande parte da discografia deles era feita de adaptações das músicas internacionais.

Cíntia Garcia, 2M

Camila disse...

Mas tem também muitos artistas que fazem versões de músicas de banda brasileiras, como Os Mutantes. Existem inúmeras versões para as músicas deles. Assim como músicas do Tom Jobim.

E, saindo um pouco dessa linha, tenho visto ultimamente bastante parcerias de músicos brasileiros com músicos estrangeiros, daqui da America Latina e de outros lugares também. Como Vitor Ramil, que é gaúcho, com o Jorge Dexler, que é de Montevidéu e, também o Rodrigo Amarante (Los Hermanos) que formou uma banda com o Fabricio Moretti, bateirista da banda Strokes, a Little Joy. Ele fez também algumas parceirias com o Devendra Banhart, que é um dos meus músicos preferidos. Ele foi criado na Venezuela, mas agora mora na Califórnia.

Ariane disse...

Sabe, ando extremamente revoltada em função dessas versões "brazileiradas". Concordo que dê um trabalho realmente grande para encaixar a letra na melodia e tal, mas isso é uma total falta de criatividade.
Porém, há vezes em que o resultado fica bom, como no caso da banda Tequila Baby (banda gaúcha de Punk Rock) que fez duas versões em cima de músicas dos Beatles:
Menina Linda - I should know better
Caindo - I've just seen a face
A primeira alterou um pouco o sentido da música (que era de Romântico-Meloso para algo mais pesado), passando para a batida do punk rock; enquanto a segunda continuou com uma ótima tradução e ainda assim com a batida do punk rock gaúcho.

Porém, ando ouvindo por aí versões HORROROSAS das músicas desse Clássico do Rock que é os Beatles, e volto a afirmar que é revoltante, ainda mais para fãs como eu que entendem as letras em inglês e que notam os erros ESCABROSOS cometidos pelos plagiadores.

Ariane 2M

Suélen Acosta disse...

Aposto que os artistas que fazem versões de músicas brasileiras não nos pagam tanto assim.

E versões não precisam ser apenas traduções da original,na maioria das vezes não.O pior mesmo é quando os artistas fazem versões de músicas que estão em alta.

Graças a internet o artista não preisa pagar para gravar uma versão pq não se faz necessário ir a uma gravadora,como no caso da Stephany que o André falou,e os caras q transformaram "I wuill Surviver" em "Ai Wilson Vai".Neste caso as gravadoras das versões original nem ficam sabendo.
Suélen 2m

Suélen Acosta disse...

*precisa

Fani disse...

Calma pessoal,
As versões, como qualquer outro trabalho de criação, podem produzir bons ou maus resultados estéticos. As versões feitas, por exemplo, por Caetano Veloso para músicas de Bob Dylan são belíssimas. Vocês também podem associar as versões com as "traduções" de poesia. Nesse caso, fala-se de transcriação, de recriação e não de tradução, esta última praticamente impossível na poesia. É isso aí, o debate continua.

Shelley disse...

É verdade! Traduzir uma poesia é extremamente complicado. Primeiro por que as palavras não soam da mesma forma, segundo por que muitas vezes os poetas usam metáforas, comuns ao lugar em que vivem, mas não à nós. A música não deve estar numa situação muito diferente. E não creio que seja falta de criatividade. Acredito até que seja necessário ser muito criativo pra exercer trabalhos assim. Pego o meu próprio exemplo, acho muito mais fácil começar do zero e criar, do que reinventar, recriar.

Shelley disse...

Ah! Pra vocês terem uma noção, tentem traduzir para o inglês os poemas de Castro Alves.
É algo impressionante, pelo menos metade das palavras vocês não vão encontrar no dicionário.
**experiência própria!

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