quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Entrevista
O que é sentido faz sentido
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Lala Deheinzelin, assessora em Economia Criativa da ONU, é superintendente da cultura do Núcleo de Estudos do Futuro da PUC-SP.
Esta entrevista foi publicada originalmente pela revista Arc Design, em setembro de 2008.

Fala-se cada vez mais em Economia Criativa. O que significa, realmente, essa expressão?
É uma nova maneira de pensar o mundo e nossas ações, a partir dos recursos de que dispomos, visando alcançar um futuro desejável. Podemos dizer que a Economia Criativa é o guarda-chuva que abrange as atividades que têm a criatividade e os recursos culturais como matéria-prima. Até o século XX, exploravam-se unicamente os recursos tangíveis: a terra, o petróleo, etc., que são finitos. O século XXI é aquele dos recursos intangíveis, ou seja, da criatividade.

Como e por que acontece – ou deverá acontecer – essa mudança em nossas atitudes e formas de pensar?
Estamos em um momento de transformação. É o momento que sucede o da tomada de consciência de que não podemos basear nosso sistema econômico e produtivo em recursos não-renováveis. A Economia Criativa é a dos recursos renováveis, portanto, estratégicos, que têm o poder de transformar a sociedade e seus fatores sociais, ambientais e culturais.

Soa ainda estranha a expressão que une a palavra “economia”, que se refere ao universo tangível, à noção de “criativa”, que pertence ao mundo intangível. Como se dá essa união?
É este, exatamente, um dos aspectos interessantes da Economia Criativa, pois ela atua de forma interdependente, com dois ecossistemas. Nesse binômio, o criativo lida com o ecossistema cultural, que tem quatro dimensões: a simbólica, onde estão inseridos os valores culturais; a social, que abarca o setor público; o privado e a sociedade civil, por meio de redes; a dimensão ambiental, que inclui o ambiente natural e aquele tecnológico, e a econômica, que atua como mediadora das outras.

Como acontece essa transformação que afeta diretamente nossas “estruturas presentes”? Quais os indícios de que o Brasil pode ser parte dessa nova realidade?
Esse processo já começou, já existe um pensamento que não trata da indústria criativa, aquela que se refere à produção de grandes quantidades e utiliza pouca mão-de-obra. Em vez do muito produzido por poucos, começamos a valorizar a produção feita por muitos, onde cada um vende pouco. Um exemplo divertido está na indústria cinematográfica, com a diferença entre Hollywood e a Roliúde Nordestina, situada na cidade de Cabaceiras, Paraíba.
Local onde nunca chove, começou a ser escolhida como cenário para produções cinematográficas – um problema que, na economia criativa, se transforma em solução. O Brasil já trabalha, como no design e no artesanato, com a mentalidade da Economia Criativa. Estamos ligados nos processos, não nas linhas de produção de fábricas, mas na gestão e no intangível.

O que já existe, no panorama internacional, em termos de dados que comprovem as vantagens dessa mudança de perspectiva na economia?
De acordo com a UNCTAD (United Nations Conference on Trade and Development), os negócios criativos são bons negócios. Conforme o Creative Economy Report, eles crescem duas vezes mais que a indústria, quatro vezes que a manufatura e seis vezes mais quando o assunto é economia da experiência, o turismo.

Como avaliar hoje a dimensão e a abrangência dessa nova forma de agir? Como os governos e as instituições reagem?
Ninguém tem noção do tamanho da Economia Criativa. Precisamos desenvolver parâmetros para enfrentar a nova realidade. As políticas de desenvolvimento deveriam ser baseadas nessas novas ideias. As coisas finitas se medem com régua. O que não é finito é multidimensional. É como querer medir litro com régua.

Cases de sucesso
São Paulo Fashion Week, Doutores da Alegria e Nigéria
Podemos citar três cases de sucesso no âmbito da Economia Criativa. O primeiro é o São Paulo Fashion Week, que não é um produto, mas um processo de coesão. Trabalha-se, fortemente ancorada em valores, a organização de um setor, que é privado, não tem apoio do governo, e é estratégico para a cidade.
Outra experiência é a dos Doutores da Alegria, uma intersecção entre o terceiro setor e a criatividade. Wellington Nogueira, fundador deste grupo que começou com voluntários vestidos de palhaço para visitar crianças em hospitais, espera que no futuro tenhamos “besteirologistas” ou palhaços qualificados. Hoje eles se profissionalizaram, são bem pagos, têm formação adequada. E o projeto já deu muitos “filhotes”, com publicações, pesquisa acadêmica, treinamento de empresários.
O terceiro exemplo vem da Nigéria, onde não há (ou não havia até bem pouco tempo) cinemas. Graças a essa precariedade resultante da pobreza, atualmente o país é o maior produtor de audiovisuais do mundo. É sempre uma produção caseira, sem grandes recursos, mas Hollywood produz 300 títulos por ano, e a Nigéria distribui 30 títulos por semana! As fontes de renda dessa nação são, por ordem de grandeza, a agricultura, o audiovisual e, depois, o petróleo.
O Brasil já trabalha, como no design e no artesanato, com a mentalidade da Economia Criativa. Estamos ligados nos processos, não nas linhas de produção de fábricas, mas na gestão e no intangível.
Lala Deheinzelin

quinta-feira, 21 de maio de 2009




O Curso Técnico em Gestão Cultural do IFSUL/ Campus Sapucaia do Sul começou em 2008. É uma experiência pioneira numa área estratégica que tem crescido muito no Brasil, mas que precisa enfrentar importantes desafios. Este blog surgiu da necessidade de democratizar as informações sobre cultura e estimular a discussão de temas como identidade, arte, patrimônio, sociedade e desenvolvimento. Também é um espaço de divulgação das ações e projetos dos alunos de Gestão Cultural. Queremos formar um caleidoscópio de idéias, uma teia criativa em que diferentes facetas se interligam e muitas vozes dialogam. Nosso objetivo é criar o nosso fórum do setor cultural, disponibilizar textos e informações, entrevistas com profissionais da área, relatos de experiências e de projetos na área cultural e promover o debate sobre as políticas públicas para o setor no Brasil e no mundo. Estamos propondo um desafio para os alunos de Gestão Cultural, para os professores que atuam no curso e para todos aqueles que se interessam pelo tema. Marque presença neste portfólio cultural.
 

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